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Por: Rebecca Lyrio Humilhado

Você já passou por alguma humilhação? Levando ao pé da letra, humilhar é um verbo transitivo oriundo do latim humiliare que significa tornar humilde, abater, oprimir, rebaixar, vexar alguém.

Desde os tempos passados, o ser humano está exposto, através da convivência social, a inusitadas situações e comportamentos adversos. Para poder transitar em ambientes sociais distintos, como o trabalho, as reuniões com os amigos ou os encontros familiares, é necessário que cada indivíduo mergulhe em um universo e se adeque a ele. As adequações sociais fazem parte da representação do ser humano em seus cenários cotidianos, onde cada indivíduo veste suas máscaras e encena o papel necessário para poder transitar dentro dos padrões aceitos, sem sofrerem rejeição.

Mas e se você resolvesse ser quem você realmente deseja? Viver é um risco e expor suas opiniões requer ousadia e firmeza, ainda mais nos dias atuais, onde a informação se espalha em segundos e todos são juízes de si. Com o avanço tecnológico e o domínio das mídias digitais, a maneira como a sociedade pensa e percebe o mundo se alterou. Hoje tudo está ao alcance de um clique, um cenário pode ser construído em minutos e é capaz de induzir milhões de pessoas a um pensamento comum.

Nesse contexto, é curioso observar como o ser humano alterou a forma de se posicionar e como a internet passou a dar voz e poder a pessoas que, em outros cenários, seriam impotentes e não seriam percebidas.

Redes sociais como o Facebook e o Twitter viraram o espaço de convívio de milhões de pessoas, canais que vão muito além da socialização, mas que expressam uma nova forma de viver e perceber o mundo e as pessoas que nele vivem. As redes sociais, hoje, são a representação do mundo e toda a sua diversidade.

E foi nesse contexto que Jon Ronson deu vida ao livro Humilhado. O livro traz relatos obtidos ao longo de 3 anos, sobre pessoas que tiveram suas vidas expostas e seus destinos mudados através de julgamentos que aconteceram nas redes sociais, retomando a ideia de humilhação pública, onde as pessoas eram expostas nas praças e castigadas a céu aberto, julgadas pelo povo e sua capacidade imparcial de punir.

O livro aborda uma série de histórias de pessoas que foram as causadoras de situações de humilhação e constrangimento ou de indivíduos que passaram por algum tipo de humilhação e tiveram sua vida exposta na mídia, a mercê do julgamento de uma sociedade hiperconectada, que muitas vezes busca julgar o outro para poder expô-lo ao máximo, de forma que a sua própria hipocrisia e defeitos não sejam vistos.

O próprio autor passou por uma situação onde teve sua liberdade violada, quando teve seu nome veiculado a uma conta fake no perfil do Twitter. Esse fato foi responsável por despertar o olhar de Robson para o poder das mídias digitais, já que ao expor sua situação na rede, passou a ter vários “advogados” que saíram em sua defesa e , muitas vezes sugeriram punições horrendas contra os criadores do perfil falso. Foi esse poder da internet, que passou a dar voz para que estas pessoas se tornassem o fio condutor da humilhação pública que motivou o autor a buscar histórias de pessoas que tenham passado por situações deste tipo.

Em sua busca por entrevistas, o autor chegou até Justine Sacoo, que viu sua vida mudar após fazer um tweet antes de embarcar para a África, onde dizia: “Indo para África. Espero não pegar aids. Brincadeira. Sou branca”. A relações Públicas, ao desembarcar no continente africano, foi recebida sob protestos e teve que voltar ao país de origem pois sua segurança estava ameaçada. Justine perdeu o emprego e, por mais que pedisse desculpas, foi vítima dos comentários e desejos mais violentos por parte dos internautas, que sugeriam desde o seu estupro até sua morte. Estas e muitas histórias são retratadas ao decorrer do livro, despertando no leitor uma criticidade, ao passo que permite que os humilhados tenham a oportunidade de relatar os seus dramas e como toda a exposição na internet mudou, para sempre suas vidas, a forma como eles se relacionam e se percebem diante do mundo.

No decorrer do livro, são inúmeras as manifestações de bullyng nos meios digitais, o que nos leva a questionar a forma, muitas vezes abusiva, como desvendamos e criticamos o outro, numa tentativa gritante de esconder e acobertar nossos próprios erros.

Nossa sociedade vive hiperconectada por canais invisíveis e o Humilhado nos convida para revisitar as nossas relações, a forma como nos percebemos nesta sociedade e como percebemos o outro nesse contexto.

E você, já se questionou sobre o poder que a humilhação tem de estabelecer e guiar comportamentos e controles sociais?

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